20.11.09

SONG FOR ANA


Penso em você
Mais que de vez em quando
Acabei de te ver na tv
Figurando num comercial estranho

Assobiei o seu abc
Enquanto tomava banho
É um amor sem por que
A distância me deixa humano

Vamos juntos até morrer
Mas como todo bom cigano
Vou na frente pelo prazer
De ver a viúva alegre chorando

Sérgio Viralobos

NÃO À EXTRADIÇÃO


DIÁRIO DE UM PALESTINO

a violência é tão fascinante
queria ter dito isto antes
não fui eu que inventei o terror
nada me impede de ser um monstro
ao menos por um minuto
enquanto eu esquento o pavio curto
um simples massacre no aeroporto
com o meu detonador de dinamite
ver estrelas não é bonito ?
se você ainda estiver vivo
desconfie do seu bom gosto
o defeito melhora o seu rosto

Sérgio Viralobos e Marcos Prado

OSTRANENIE, a road poem


Pego nessa estranha lógica do mundo

Peço carona para a família de malucos

Que tem como hobbies mais esdrúxulos

Não contar as horas, só contar os cucos,

Trocar beijos como quem troca socos,

Praguejar como um bando de marujos

E tomar na cara achando que é soluço.

Perguntam a meu nariz se estamos juntos

Rasuram paisagens, comem presunto,

Depois falam falam falam como loucos

Até ficarem sem voz e sem assunto.

Desço, em algum antigo vilarejo russo.



Rodrigo Garcia Lopes

19.11.09

LÁGRIMAS DE CRISTAL LÍQUIDO


ela queria que eu fosse um robô
eu só fiquei desumano
arranquei os lábios do batom
com minha boca enferrujando

os robôs também choram
dê-lhes uma cebola

Marcos Prado e Edson de Vulcanis

15.11.09

VENUS ROBÓTICA


Love robot, é uma das telas expostas na mostra Venus Robotica: sex-robot sur catalogue, em Paris. A boneca, obra de uma artista que assina June-1, é um dos quinze trabalhos de várias tendências artísticas cuja missão é inspirar designers a construir as robôs humanoides mais sedutoras do futuro. Thierry Ruby, o diretor do Cabinet des Curieux, onde Venus Robotica acontece até o fim de dezembro, lança: “O tema é atual”. Atualíssimo.

Segundo o britânico David Levy, campeão internacional de xadrez, expert em inteligência artificial e autor do best seller Love + Sex With Robots, atualmente não é sequer possível imaginar os avanços que serão realizados nos próximos três anos nas (e nos) robôs humanoides. No seu best seller, Levy sustenta que até 2050 será normal alguém ter uma relação íntima com um robô. Mais: será comum uma pessoa se apaixonar por um (a) robô humanoide – e se casar com ele(a). E ter ciúmes da ou do robô humanoide.

Fonte: Carta Capital

REPLICANTES, INOCENTES E GAROTOS PODRES EM CWB

BRASIL ADENTRO


Saio do trabalho distraido
Pisando no pé de um pedinte
Esgotos a céu aberto
Me acompanham pelas ruas
Um cheiro de desinfetante
Misturado com rato morto
Esquenta ainda mais o calor
Um bêbado gosta da minha gravata
E me chama de pastor
Mais duas quadras e chego em casa
Pra alegria das baratas
Hoje sou eu que persigo o brasil
Posso dizer que somos íntimos

Sérgio Viralobos


14.11.09

ROLÊ EM BELÉM


Neste final de semana acontece o Festival Se Rasgum, em Belém do Pará. Ano passado, assisti alguns shows do palco, graças aos meus amigos do Plebe Rude, que estavam se apresentando.

Para esta edição, o evento teve 103 bandas inscritas só do Pará, de diferentes estilos. O Festival foi apontado pela Revista Bravo! como um dos cinco festivais mais importantes da atualidade. Neste ano, a Se Rasgum também passou a integrar a Abrafin, a Associação Brasileira de Festivais Independentes.

O Festival será realizado no African Bar, no centro da capital paraense, com o seguinte formato: dois palcos, onde as atrações se revezam em shows seqüenciados e sem intervalos. Um terceiro palco, armado no espaço Laboratório, apresenta trabalhos experimentais, DJs e apostas em novos talentos. Completam a estrutura do evento os espaços da feira de moda, piercing & tatoo, mini ramp, ações de grafitagem e stêncil, praça de alimentação e o Ecolounge.

Algumas das bandas escaladas: Nação Zumbi (PE), Bonde do Rolê (PR), Gork (SP), Pato Fu (MG), Comunidade Nin-Jitsu (RS), Digital Dubs com BNegão e Ras Bernardo (RJ), Velhas Virgens (SP), Hablan Por La Espalda (URU) e Pinduca, o rei do Carimbó.


POESIA PAU-BRASÍLIA



No final da década de 70 do século passado, eu morava em Brasília e havia um poeta chamado Nicolas Behr que mandava no pedaço. Chegou a vender 8 mil cópias mimeografadas do livro Iogurte com Farinha, de mão em mão. O homem ainda está vivo e virou ecologista. Veja alguns de seus poemas da época.

ninguém me ama
ninguém me quer

ninguém me chama nicolas behr


AMOR PUNK

aquele beijo na boca
que você me deu
semana passada
tá doendo até hoje

pra noca


HOSPITAL DA POBRÁS

berçário

Pai: Nicolas Behr
Mãe: lápis e papel

Nome: Parto do Dia
Pêso: 16 páginas
Sexo: Biodegradável
Estatura: 16,5 cm

obs: a criança só come
iogurte com farinha


SAÍDA DE EMERGÊNCIA

subo aos céus

pelas escadas rolantes
da rodoviária de brasília

o corpo de cristo
aqui não é pão
é pastel de carne

o sangue de cristo
não é vinho
é caldo de cana

o padroeiro desta cidade
é S. João Bosco ou Padim Ciço?

13.11.09

sempre é bom ouvir

SEXTA 13 NO INFERNO


Sexta-feira 13 de novembro Inocentes e Replicantes pela primeira vez juntos. A apresetação histórica acontece no Inferno na Rua Augusta, 501 - SÃO PAULO.

11.11.09

FACEBOOK IS ON THE TABLE


Selvagem mesmo!!! Me apaixonei!! Adoro homem malvado!!!
Eu sequer consegui chegar em casa. uma merda. beijo.
Parecia um filme pornô pra cachorros

Passarinho que anda com morcego acorda de ponta cabeça

Imagino o fascínio!!!

O sistema se recuperou de um erro grave

Só o que por nunca nú

Você continua comendo uva na chuva
Olha o cheiro do filme queimando...
Kkkkk hehehe ahahaha
Adicionar é preciso
Viver não é preciso

Sérgio Viralobos





8.11.09

BAKUN EM SÃO PAULO




O nome do pintor paranaense Miguel Bakun (1909-1963) dificilmente aparecerá associado na história da arte brasileira ao do artista multimídia carioca Hélio Oiticica (1937-1980), a não ser pelo fato de Bakun, um criador genial ainda pouco conhecido fora do Paraná, ter montado seu ateliê justamente no ano em que Oiticica deu seu primeiro berro no mundo, em 1937. Por uma dessas razões que o místico Bakun saberia explicar, ele e Oiticica estão juntos num mesmo espaço, o Instituto de Arte Contemporânea (IAC), em São Paulo, que abre hoje duas exposições, Da Estrutura ao Tempo, com 18 obras de Oiticica e curadoria de Cauê Alves, e Miguel Bakun: Natureza e Destino, com 31 telas escolhidas pela curadora Eliane Prolik para homenagear o centenário de nascimento do pintor, comemorado no dia 28.A reunião dos dois, a despeito de parecer insólita, tem tudo a ver. Ambos trabalharam na contramão. Bakun, como Oiticica, era um outsider. Desculpas antecipadas pela expressão inglesa, mas falar em marginal seria se apropriar de uma palavra de ordem do último, que fez de um estandarte vermelho sua obra e profissão de fé: "Seja marginal, seja herói".
Luz é uma palavra-chave para entender a pintura de Bakun. No auge do abstracionismo geométrico, dominante nos anos 1950, ele pintava paisagens com uma paleta limitada de cores - coincidência ou não, as quatro da bandeira brasileira: verde, amarelo, azul e branco. "O primeiro impulso, um pouco simplista" é transformar Bakun "num desses expressionistas extraviados", observa o crítico Ronaldo Brito no catálogo da exposição.No entanto, garante Eliane Prolik, curadora da mostra, a pintura do autodidata Bakun não é devedora da tradição, mas da intuição, apesar de muitos o associarem a Van Gogh - e isso não só pelo uso do amarelo como pela religiosidade mística e as paisagens em que a figura humana aparece amalgamada à natureza. De família com poucos recursos, ele conheceu, sim, Pancetti quando estava na Marinha, outro autodidata, mas dele só conservou o gosto por autorretratos como forma de autoconhecimento. Há, inclusive, um, pintado em 1944, em que Bakun aparece numa pose hierática, a exemplo dos autorretratos de Pancetti. Com uma diferença: ele consegue ser ainda mais melancólico.Segundo amigos e familiares, Bakun produziu algo em torno de 800 obras, muitas delas ainda no ateliê do artista quando ele se matou, em 1963. Depressivo , Bakun testemunhou o que seria uma manifestação teofânica em 1960, quando, ao rezar, ouviu um estrondo que abalou seu ateliê. Começava uma viagem para a luz, marcada por formas mais nítidas e tons mais claros.
Gostar de Bakun não é facil: seus quadros não seduzem de imediato, seu amarelo é sujo, quase esverdeado. Bakun não é nem mesmo um colorista, mas a atmosfera de suas obras perturba, se impõe.

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

7.11.09

MORREU ANSELMO DUARTE


Conheci Anselmo Duarte há alguns anos, quando ele já estava com Mal de Alzheimer, mas continuava um grande contador de casos. Na festa desta foto, o Carlos Careqa também estava.

CIDADE OBUS


Agora que estou indo embora
Começo a gostar do lugar
Ignorância à flor da pele
Às vezes é bom pra variar

Você fica muito mais esperto
Onde o barbeiro pode furar sua jugular
Cortei o cabelo bem rente
Mais um cadáver bóia do rio pro mar

Marabá quer dizer filho de francês com índia
Cidade bastarda procurando se encontrar
Mais triste por mais dessemelhante
Estou indo embora pra não revoltar

Sérgio Viralobos

5.11.09

poema glauberiano

3.11.09

O ANACORETA SOMBRIO


Sou arrogante
Com o pouco que tenho
Pra me arrogar

Fico distante
De quem me estende a mão
Do mínimo ao polegar

Sei o bastante
Pra não saber de mais nada
Sou suprassumo do superstar

Mundo não vai adiante
Não digam que não avisei
Ser tão assim vai me virar mar

Sérgio Viralobos

2.11.09

NOTÍCIAS DE LONDRES




O Coletivo Rádio Cipó, de Belém do Pará, foi convidado pra se apresentar no London International Festival of Exploratory Music of 2009, que será realizado entre os próximos dias 4 e 7, no Kings Place, em Londres. O Rádio Cipó é um núcleo de produção de mídia sonora aliado à tecnologia de áudio digital caseira na produção de pesquisas sonoras experimentais com o objetivo de divulgar essa produção para o Brasil e no exterior. Seus integrantes são Carlinhos Vas, Renato Chalu, Guto Baca, Jared das Arábias, Ratto Boy e o convidado especialíssimo Mestre Laurentino.
João Laurentino da Silva, vulgo Mestre Laurentino, nasceu em Ponta de Pedras (PA), em 1926, completou 83 anos de vida e 60 de carreira sem ter gravado um único disco – um autêntico marginal. Que, porém, não ficou parado e tratou de criar formas de música pra lá de particular, produzindo centenas de fitas cassetes gravadas no quintal de sua casa. Detalhe: nelas, dá pra se ouvir uivados de cachorros, papagaios gritando, galinhas e patos cacarejando, um fuzuê. Acabou criando uma linguagem diferenciada no ato de fazer música. Começando pela personagem Mestre Laurentino ou Laurentino da gaita – estiloso que só ele, produz suas próprias roupas. E ai de quem mexer com o velho: leva sempre na cintura sua faca francesa, a famosa "provoca que eu te finco". Em Londres, vai tocar as músicas "Loirinha Americana", "Negra Missamplu", "O Roque da Aranha Cor de Rosa" e "Vale de São Fernando".
Aproveitando a ida pra Europa, o Rádio Cipó se apresentará, no dia 8 de novembro, no famoso pub Favela Chic, em Paris.

1.11.09

Poema de um esquizofrênico para uma bipolar


vocês me deram um ultimato
me deixando sem cachorro no mato
quisera eu ter dois corações queimando no peito
emitindo sinais de fumaça, sem jeito
explodindo napalm entre dois amores perfeitos
não posso ser dois, nem ao menos um, imperfeito
quisera eu ser todos o que vocês querem
tendo as duas,
lado a lado, no mesmo leito

solda

MAU HÁBITO


Desde o começo
Foi tudo um fato fálico
Que podia dar certo
Se não fosse o seu mau hábito

O hábito da roupa
Geralmente é o mais sólido
Não suporto sua mania
De se vestir a preço módico

O hábito é que faz a monja
Desuniu-nos seu estilo único
Desfila pela passarela
Cagando e andando para o público

Sérgio Viralobos

31.10.09

ZOMBIE WALK EM SÃO PAULO


Data: 2 de novembro, segunda-feira (Finados).
Horário: Concentração às 15h e saída às 17h.
Local: Praça do Patriarca (próxima ao metrô Anhangabaú).

A Zombie Walk é um evento internacional organizado por fãs de filmes de terror que ocorre há anos em diversas cidades do mundo, e consiste em uma multidão de pessoas fantasiadas de zumbi andando pela cidade por uma rota pré-definida.

O evento é gratuito e a participação é livre, bastando aparecer à caráter no dia e horário combinado e se unir à turba. Não precisa de nenhum tipo de inscrição prévia e é promovido via internet, ou através de flyers, cartazes etc. Durante o evento, os participantes se comunicam como zumbis, grunhindo, gemendo e gritando "miolos" ou "cérebros".

Uma das primeiras Zombie Walks foi em Outubro de 2003, em Toronto, Canadá, com apenas seis participantes. Em 27 de Agosto de 2005 ocorreu em Vancouver, Canadá, a primeira Zombie Walk em grande escala, com mais de 400 participantes caminhando por mais de 35 quadras no centro da cidade. A primeira Zombie Walk realizada no Brasil foi em Belém, em 29 de Outubro de 2006 e este ano vai acontecer de novo, na mesma data de São Paulo.

30.10.09

A PERIFERIA VAI EXPLODIR A QUALQUER MOMENTO


Trechos da entrevista de Ferréz à revista Caros Amigos:

Fale um pouco da sua vida, onde nasceu, estudou, o que faz hoje.
Meu nome é Ferréz, eu não uso meu nome de batismo por que eu não acredito no batismo, não acredito na Igreja Católica. Prefiro um pseudônimo, por que é uma coisa que eu inventei também, como a minha carreira. Eu sou vendedor ambulante, eu só vivo com coisa debaixo do braço para cima e para baixo para vender às editoras, sou datilógrafo também, por que escrevo e trabalho com muita coisa para poder ter o básico, então vivo de muita coisa, trabalho de muita coisa. A minha infância foi normal como a de todo moleque de favela, tá ligado? Só não soltava tanto pipa porque meu pai não deixava.
Nasceu onde?
Nasci no Valo Velho, na verdade eu nasci num lugar chamado Cantinho do Céu, que é antes um pouco, ali no Jardim Capelinha, na zona sul de São Paulo. Nasci ali, fui para o Valo Velho, mas eu sempre falo do Valo Velho porque pra mim o começo da minha infância foi no Valo Velho, na casa de aluguel do meu pai. Depois eu mudei para o Capão Redondo, na verdade Valo Velho é área do Capão também, para o Jardim Comercial e estou lá até hoje.
Que idade você tem?
Tenho 33. Estou pronto para ser crucificado.

Quando e como você começou a gostar de literatura?
Meu, não tem uma data assim. Tipo, eu não sei assim um dia eu acordei e falei agora eu gosto de literatura, sabe? Mas eu lia sempre quadrinhos e gostava de Robert E. Howard que é o autor do Conan e aí eu buscava saber sobre o cara, e a biografia dos autores sempre me interessou mais e então eu comecei a buscar saber mais sobre os caras. Eu sempre tive um ensino paralelo ao da escola, então se eu gostava de Conan eu lia Conan no serviço e ia para escola, tinha que ler Aluísio de Azevedo ou tinha que ler CarlosDrummond de Andrade lá, mas o Carlos Drummond de Andrade lá não me interessava...
O que acha dos rappers tipo GOG, Racionais, Facção Central?
São a minha escola também, eu não existiria e toda uma legião de caras que existe hoje que gosta de literatura e rap, não existiria se não fosse eles. O rap, pra mim, junto com os caras é uma injeção, tá ligado? Que na verdade é pra quem tá com dor, quando eu vou em faculdade fazer palestra tem um monte de gente que reclama, mas eu acho violento Facção Central, Racionais... Por que não é para eles, eles não precisam ouvir aquilo, elesnão tão na cadeia, eles não tão usando droga, então não precisa. É bem claro pra mim, as letras de rap no Brasil são as melhores letras do mundo, não existe um tipo de letra de rap no mundo igual as que existem no Brasil. Um rap que o cara fala: No rio em que Jesus andou, o homem navegou e matou pela cor. Não existe em nenhum lugar no mundo um verso como o homem nasceu com defeito de fabricação, invés do coração uma granada de mão dentro do peito. É o tipo de letra que os caras fazem.
O PCC mudou a favela de que maneira?
De toda a maneira possível que você pensa.
Positivamente?
Depende da visão. Tem gente que pensa que é positivo, tem gente que pensa que é negativo. Mas mudou.
Você pode falar um pouco dos dois lados, do lado positivo e do lado negativo?
O lado positivo é que a elite não sabe mais o que é a favela, não tem nem noção. O governo não tem noção do que é a favela mais, porque é outra favela, é outra coisa... E o lado negativo é que a população sempre vai ser oprimida.
O lado positivo é outra coisa como?
Não tem como explicar, assim... Mas mudou, eu, por exemplo, quando eu escrevi o Manual Prático do Ódio a favela era aqui, agora se eu for escrever sobre a favela agora é outra coisa. Por isso eu não escrevo mais sobre a favela, o meu próximo romance não é mais sobre a favela, por que eu não faço mais questão da elite saber o que é a favela não, não me interessa mais...
Mas mudou exatamente o quê? Explica um pouco melhor.
Mudou tudo. Mudou a vida criminal, tem regra, mudou tudo o que você imagina na vida cotidiana da periferia mudou.
É um Estado paralelo dentro da favela?
Poder paralelo? Não, é o poder. Esse negócio de dizer que é o poder paralelo, não existe o poder paralelo, o Estado não manda na favela, quem disse que o Estado manda na favela? A PM vai lá manda o cara por a mão da cabeça e tudo, repudia o cara, mas depois o cara volta a ser da favela, entendeu? Por mais que os caras cerquem um motoboy, cerquem o cara que está dentro do ônibus, bata geral em todo mundo eles vão embora e a favela continua. Então mudou tudo e vai mudar mais ainda, ta em processo de mudança.
Mas houve regras fixadas claras? O que aconteceu?
Há regras fixadas claras e toda uma norma de conduta e de respeito que o Estado nunca conseguiu impor.
Quem impõe?
O crime.
E qual é a saída para este tipo de coisa ?
A saída é clara. A saída é...já começou a saída há algum tempo. A saída tá na cara das pessoas, só não vê quem não quer. A saída é que o povo está se mexendo, isso não é utopia minha, quando você vê uma favela reagindo, quando você vê um ônibus queimando, não é o crime, por mais que a mídia queira.
Mas tem alguma articulação? Vocês tem uma integração entre vocês ?
É aí que a gente tem que ter medo, porque não tem articulação pensada. E quando não tem nada pensado é muito mais fácil de fazer funcionar.Porque se num organismo por célula eu converso com tal e tal quebrada e organizo um manifesto é uma coisa que eu criei, certo ? Ou a pessoa de outra quebrada da Leste criou. Agora quando é automático, quando eu ponho uma notícia de abordagem policial comigo e todas as favelas mandam email dizendo: é isso mesmo, se precisar estamos juntos. Você pega e fala: Opa! Peraí, peraí! Eu não organizei nada disso mano! E tem gente de todos os lugares também, por quê? Porque o cara também tomou tapa na cara, o outro também foi baleado, então eu vejo medo na não organização, entendeu ? Por que quando não tem organização, aí a elite tem que ter medo.
Você acha que o que aconteceu em Heliópolis, é processo de que o povo não vai aguentar mais ser agredido assim ?
Ó, eu tenho certeza absoluta do que eu vou te falar, vai chegar um dia que uma agressão a um menino ou uma menina vai virar uma revolução em São Paulo inteira e São Paulo não vai se controlar, vai pegar fogo em São Paulo inteira. Uma agressão. Vai chegar num momento em que um cara vai tomar tapa na cara e despertar o ódio de todo mundo de todas as quebradas e aí haja mentira pra mídia mentir.
E você acha que está chegando esta hora ?
Eu acho que a gente não vai saber o timing dela não. Quem tá na favela vai sentir, eu senti os atentados 3,4 meses antes, fiz até um artigo para a Caros Amigos, porque você sente o clima. Tá muito tranquilo, mano, tá muito na moral, tá muito...Muito...Entendeu
Você é ateu ?
Eu não sou ateu por que eu não li a bíblia dos ateus, eu estou procurando essa bíblia faz um tempo, entendeu ? Mas eu não sou ateu, não sou agnóstico, não sou nada disso, eu só sou um ser-humano que escreve.
Você acredita em Deus ?
Eu queria que ele acreditasse em mim, é verdade. Como eu ainda não sei se ele acredita em mim, eu ainda não posso dizer que acredito nele. Mas se ele acreditar em mim eu começo a acreditar nele, porque aí a gente vai se entender.

25.10.09

GROTA CRIMINOSA


Acordo na quinta
Achando que é quarta
Pesadelo me bateu de cinta
Levanto no pau a comparsa

Ela sai sem dar pinta
Pro raio que a parta
No meio do dia cinza
Jogo no morto sua carta

Sou o aborto de um parto
Conservado em álcool anidro
Ou qualquer outro barato
O que for pior eu prefiro

Espelho no quarto
Maldito de vidro
Reflete meu fuço de rato
No meio de um espirro

Sérgio Viralobos